Rio Grande do Norte

Lançamento

O que tu indica? | Reflexões galerosas para descompor o isolamento

Descompondo o silêncio, novo álbum de Academia da Berlinda, é um alento em tempos de confinamento.

Brasil de Fato | Natal (RN) |
Capa do álbum - Divulgação

 

Em um intervalo de quatro anos muita coisa aconteceu nesta República. Ao passo que parte do mundo vem perdendo o brilho e a cor, o caos também tem sido fonte de inspiração para que obras artísticas deem vazão aos anseios e angústias, mas também carreguem a missão de não deixar a esperança morrer.

Quatro anos é justamente o tempo que separa os lançamentos de Nada sem Ela (2016) e Descompondo o Silêncio, mais novo álbum da banda pernambucana Academia da Berlinda, conhecida por seu ritmo dançante e "galeroso", com influências que passam pela cumbia, carimbó e o brega pernambucano. Foi com essa mistura que a Academia da Berlinda se consolidou como um importante nome da cena alternativa brasileira.

Tendo ciência disto, posso dizer que Descompondo o Silêncio é o álbum que mais destoa dos demais e não digo isto de forma pejorativa. Totalmente conectado com os dias atuais, o novo álbum apresenta uma Academia da Berlinda dançante como sempre, mas também mais reflexiva. Diria que as 10 faixas que compõem o disco são mais para se ouvir e cantar junto.

Abrindo o disco com o verso "são as mesmas batalhas com derrotas e vitórias", o grupo dá a tônica do que ouviremos ao longo do disco: um tom de luta sem perder a esperança. Isto fica ainda mais evidente na faixa seguinte, “Fala”, com o recado explícito de que "se o comando eu lhe entreguei, tem que nos representar", e o tom de esperança lembrando de que "tanta coisa que está faltando, mas graças a Deus nunca faltou o amor".

É possível notar um amadurecimento nas letras do grupo, que já tinha dado mostras dessa evolução no álbum anterior, fugindo um pouco do óbvio mesmo em assuntos cotidianos e é o que vemos nas músicas “Calma” e “Tudo que é bonito”, onde o amor e a beleza feminina são expressos sem soar clichê, mas pontuando que "a gente se abraça e rola, mas não pode ser só coração".

Em tempos de ataque a cultura, o simples ato de se expressar artisticamente, seja qual for a linguagem, torna-se um ato de resistência e essa é a mensagem que podemos encontrar em “A música não para”, canção de onde se tira o nome do álbum nos versos "em cada canto um som, uma composição, descompondo o silêncio". E é na mesma toada que “Semente do semba” da prosseguimento, lembrando sempre "que o dia nasceu com esperança, quem tem esperança acredita no embalo da vida". São essas duas canções juntamente a faixa de abertura “Derrotas e vitórias” as que mais apontam para a esperança como motivação maior para a resistência nos tempos de luta.

Em ritmo de ciranda e canto de embolada, “Estrela do Norte” mostra que navegar é preciso e continuar cantando também, ao passo que 'Dia a Dia' apresenta um clima que mistura romantismo e melancolia, sendo uma das poucas canções do disco onde o amor é o assunto principal e a mais propícia para se dançar coladinho.

Fechando o disco, temos as músicas “Solução” e “Rude”, justamente as canções que apresentam a banda mais próxima da que o público está acostumado, onde os amores não correspondidos são os assuntos principais, mas que também abrem espaço para dizer que "se a gente der as mãos encontra solução".

Mais curto que seus antecessores, Descompondo o Silêncio traz o trunfo de todas as faixas merecerem ser executadas ao vivo. Em tempos de isolamento social, onde as dúvidas e incertezas tornam-se nossas companhias diárias, o novo álbum da banda pernambucana é um alento, fazendo-nos lembrar que nessas mesmas batalhas com vitórias e derrotas, a música não pode parar.

 

Abner Moabe é jornalista e músico.

 

 

Edição: Gabriela Cavalcanti